Há um tipo de solidão que não vem de dentro, mas do lugar onde se está.
Ser Queer fora das grandes cidades, não é apenas uma experiência identitária, mas uma experiência geográfica. Há ruas onde nunca encontraste ninguém como tu, cafés onde o silêncio pesa mais do que as conversas. Há dias inteiros em que a tua existência parece não ter eco.
Falar-se de ser-se Queer no interior de um país cada vez mais desertificado, é falar-se de uma solidão não só emocional, mas física e estrutural. Há uma maior dificuldade no encontro de pares, desenvolvendo uma sensação de ser-se “único” ou a “única pessoa assim” nos espaços onde se vive. Pequenas coisas, comuns no dia-a-dia, podem tornar-se um verdadeiro desafio: ir a um café, ir às compras, sair de casa. E nestas pequenas coisas comuns do dia-a-dia, torna-se difícil lidar com os olhares e comentários que se tornam burburinho ao nosso redor, empurrando-nos de novo para a caixa da normatividade e uma expressão Queer fechada entre quatro paredes. E, poder-se-ía dizer que aqui, resistir, é um ato de grande coragem, tornando a fuga um processo bem menos penoso.
Relembro muitas vezes, uma das minhas primeiras experiências em espaços seguros, onde ser-se Queer era comum. Estar num bar, numa associação ou em eventos com a comunidade LGBTQIA+, tornava-se cada vez mais um escape e uma fonte de energia para enfrentar o mundo do interior de novo, com cada vez mais certeza de que eu não existia sozinho na minha bolha.
Esta experiência do ser-se Queer em pequenas cidades, vilas ou aldeias, é muito mais que o burburinho de comentários, é a solidão a que somos obrigados, o silêncio e discrição como chave de inclusão, para não se ser associado, para não se ser excluído. Aprendemos que o silêncio pode ser a melhor defesa, que dizer tudo pode custar caro, na família, no trabalho, no grupo de amigos. Ajustamos a linguagem, medem-se os gestos, escolhem-se palavras. Olhamos de forma mais longa, piadas com duplo sentido, uma identidade vivida em metades.
E aqui não falamos do medo da agressão física, mas da exclusão, humilhação. Carregamos o medo de mesas vazias, de quartos sem teto, de longos passeios solitários ou o silêncio dentro de um grupo.
A facilidade das grandes cidades está na individualidade, onde a rede de conhecidos é menor, ainda que isto possa ser um ponto negativo, numa outra perspetiva. No interior, o fenómeno de “toda a gente conhece toda a gente”, torna a exposição de uma pessoa Queer muito maior. E ser-se associado a essa pessoa, pode limitar a rede de suporte, aumentando assim o isolamento dos mesmos. São as piadas sem maldade, os olhares, a repetição de normas que não foram feitas para nós, a pressão de “seguir o guião” tradicional: casar, ter filhos, não levantar ondas.
Por estas e tantas outras razões, é que muitos partem para as grandes cidades. É quase um rito de passagem, cidades que prometem mais liberdade, anonimato, pertença. E para muitos essa promessa cumpre-se. Mas tem também o peso de partir, a memória da terra, as pessoas. Há um desenraizamento, como se para se ser plenamente como se é, fosse preciso deixar de pertencer ao lugar onde se cresceu.
Depois há quem fique. Fica-se a resistir, escolhendo existir num espaço que nem sempre está preparado, abrindo novos caminhos para outros. Tornar-se uma referência, mesmo sem se querer, criando pequenas mudanças, ocupando espaços, lutando para criar uma comunidade unida e base de apoio.
Ser-se Queer fora das grandes cidade é viver entre o silêncio e a expressão, entre a fuga e a permanência, entre o medo e a coragem. Mas é também reinventar o que significa pertencer. E talvez o futuro seja por aí: não aceitar que o interior seja espaço de ausência Queer, mas sim imaginá-lo, construí-lo, um lugar onde se possa também viver em voz alta, mesmo que por agora essa voz seja só um murmúrio. Construir um local de pertença, de convívio, de amor onde tantas vezes reina a solidão e o vazio.
Artigo escrito por Ismael Sousa
