Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

O Medo e a Alergia à Bandeira LGBTQIA+

Não quero gerar aqui discussão ou ainda mais sentimento de revolta relativamente ao tema do hastear da bandeira LGBTQIA+. A proposta de lei foi aprovada, a lei entrou em vigor no dia 18 de maio de 2026, marcando assim, uma vez mais, o retrocesso da nossa nação.

Celebrámos no dia 17 de maio, o Dia Internacional Contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia, dia em que a homossexualidade foi retirada da Lista de Doenças da Organização Mundial de Saúde.

A celebração deste dia não se pauta por uma celebração de ser-se homossexual, mas por ser um marco na história da igualdade queer. Celebrar este dia é fazê-lo por todos aqueles que durante décadas sofreram pela mão de médicos, pela mão de diversas instituições. É celebrar a memória daqueles que foram submetidos a lobotomias e terapias de conversão contra a sua vontade.

Até este ano, lutámos por içar a bandeira LGBTQIA+ nos diversos municípios de Portugal, demonstrando o apoio dos mesmos à causa. Lutámos para que este ato fosse simbólico, demonstrando inclusão e defesa das pessoas LGBTQIA+. E diversos municípios foram sensíveis e tornaram-se aliados e defensores da comunidade. Mas Viseu, não.

Durante anos travámos essa luta e nunca a vimos concretizada, chegando a ouvir do ex-Presidente da Câmera, Fernando Ruas, que nunca o município iria içar a bandeira LGBTQIA+. Com a mudança de executivo ficou-nos a esperança de vermos esse ato tão simbólico finalmente concretizado.

E fez-se luta, novamente. As respostas eram escassas, a desculpa edificava-se na nova lei que ainda não entrara em vigor. Mas num ato de ousadia ou de silenciamento, a bandeira não foi hasteada mas colocada (mal amanhada) numa das varandas do edifício da Câmera Municipal de Viseu.

Não consigo entender qual a razão de tanta alergia ou medo a este símbolo. Os ecrãs enchem-se de vultos, tecendo comentários homofóbicos nas redes sociais, algo a que também já estamos habituados. Os comentários, dos mais absurdos que se possam pensar, vão se acumulando e, por norma, os defensores são escassos.

Parece-me que cria uma certa urticária ver a bandeira LGBTQIA+, algo que não incomoda ninguém, que não estorva. As vozes levantam-se contrárias ao ato de expor este simbolo de luta pela igualdade. E se há coisa que mais me irrita é ler comentários como “volta Salazar”, “para quando uma bandeira hétero”, “o lugar deles é no manicómio”.

52 anos após a queda do Estado Novo, 36 anos após a despenalização da homossexualidade e continua-se com este ódio e com um saudosismo tipicamente português de um tempo onde muitos não viveram. Evoca-se Salazar como um exemplo de disciplina, de que “naquele tempo é que era bom”, esquecendo-se que muitas das opiniões que temos não podiam ser ditas, escritas, faladas. Ainda tratam a homossexualidade como um disturbio, uma doença.

Quando alguém decide atirar para o ar o argumento das “marchas e bandeiras hétero”, eu questiono-me sempre sobre as provações que uma pessoa hétero passa. Gostava de ouvir relatos de saídas do armário de uma pessoa hétero para os seus; gostava de saber quantos foram expulsos de casa por serem héteros, quandos foram descriminados, quantos foram agredidos, quantos foram sujeitos a terapias de conversão, se viram limitados nos seus trabalhos. Gostava que me falassem das piadas jocosas que ouviram sentados numa esplanada, quantos comentários medrosos foram ditos à sua passagem. Mas para estes comentadores de bancada, essas questões nunca se põem.

Para estes vultos atrás de ecrãs não existe necessidade de marchas ou bandeiras expostas, porque “dentro de casa façam o que quiserem”, “se quiserem levar no cu o problema é deles”. Não percebem que enquanto podem falar das suas vidas amorosas em qualquer espaço, uma pessoa LGBTQIA+ tem muitas vezes de contorná-las, usar expressões que não são diretas. Esta alergia às pessoas LGBTQIA+ tolda-lhes o entendimento da dor de viver uma vida camuflada.

Então sim, são precisos os hasteamentos de bandeiras em determinadas datas, marchas, manifestações. A igualdade não é para todos, os direitos não são todos iguais. A descriminação é real, os ataques de ódio são frequentes. E enquanto a sexualidade de alguém for um problema, causar urticária, alergia, medo, continuaremos a lutar e a içar bandeiras. Continuaremos a marchar pelas ruas, a manifestarmo-nos, muitas vezes com medo. Mas também sabemos que juntos somos mais fortes e que por mais que uma direita extremista nos tente sufocar, apagar, nós resistiremos, não nos calaremos, não iremos desistir.

Artigo escrito por Ismael Sousa