Junho é o Mês do Orgulho LGBTQIA+, um momento de celebração, visibilidade e reivindicação, mas também de memória. Reunimos dez filmes essenciais que atravessam diferentes épocas, geografias e linguagens cinematográficas. Entre a ficção e o documentário, todos os filmes sugeridos partilham um olhar atento sobre as múltiplas formas de existir, amar e resistir. São histórias de resistência, ativismo, ação política, solidariedade, desejo, afeto, comunidade, emancipação e vivências queer para ver durante o mês do Orgulho.

“Le F.A.H.R.” (1971), de Carole Roussopoulos
Em 1971, a Frente Homossexual de Ação Revolucionária (FHAR) participa na manifestação do 1.º de Maio. As imagens filmadas durante a manifestação pontuam os extratos de uma reunião pública em que se discutem as questões levantadas pelo movimento. Sendo a heterossexualidade normativa o reflexo da sociedade burguesa, a homossexualidade consciente representa uma força revolucionária. Mas, para além do conteúdo do discurso, o próprio facto de se exprimir publicamente é já um ato de libertação. Cada um fala de si próprio inscrevendo a sua história nos objetivos coletivos, o pessoal é político.
“Um Dia Inesquecível” (1977), de Ettore Scola
Nesta obra juntam-se Ettore Scola, Sophia Loren e Marcello Mastroianni num dos filmes mais íntimos do cinema italiano. Ambientado num bloco de apartamentos num bairro de Roma, no dia 6 de maio de 1938, dia em que Mussolini e Hitler se encontram pela primeira vez, todo o filme acompanha esse dia através de Antonietta (uma mulher doméstica que aguarda o regresso do marido, um fascista fanático) e do seu vizinho Gabriele (um locutor de rádio que foi despedido por ser homossexual e antifascista). Este é um filme que retrata os reprimidos da sociedade daquela época, as mulheres vítimas de uma sociedade machista e opressora e os homossexuais, vítimas, no fundo, do mesmo.

“Os Tempos de Harvey Milk” (1984), de Rob Epstein
Vencedor do Óscar para Melhor Documentário, este é um filme notável sobre a dramática e comovente história de Harvey Milk, o primeiro homossexual eleito para um cargo político na Califórnia. Recorrendo a imagens de arquivo, é um filme de esperança que relembra o tumultuoso clima social e político de São Francisco nos anos 70 e que presta homenagem aos corajosos que lutaram lado a lado com Harvey Milk e que marcaram fortemente a luta dos direitos LGBTI+ nos EUA. A título de curiosidade, deixamos ainda a sugestão de “Milk” (2008), de Gus Van Sant, que recria a vida política e a campanha do ativista Harvey Milk, e que valeu a Sean Penn o Óscar de Melhor Ator.

“Paris Is Burning” (1990), de Jennie Livingston
Considerado um dos documentários mais importantes da história do cinema queer, “Paris Is Burning” mergulha na cultura ballroom de Nova Iorque durante os anos 1980. Através das comunidades afro-americanas e latinas LGBTQIA+, o filme retrata os bailes onde se cruzavam performance, identidade e sobrevivência. É um retrato poderoso das desigualdades sociais, do racismo, da pobreza e da discriminação enfrentada por muitas pessoas queer, ao mesmo tempo que celebra a força das famílias escolhidas.

“A Caminho de Idaho” (1991), de Gus Van Sant
O terceiro filme de Gus van Sant é um dos seus melhores, um belíssimo poema visual e narrativo que conta com o excelente desempenho de Keanu Reeves e, claro, de River Phoenix. Uma história sobre dois jovens sem-abrigo e homossexuais que partem à procura da mãe de River. Um reflexo de uma geração marginalizada, num filme comovente e poético.

“Os Invisíveis” (2012), de Sébastien Lifshitz
Realizado por Sébastien Lifshitz, este é um filme delicado e emocionante sobre homens e mulheres nascidos no período entre as guerras, que optaram por viver sem esconderem a sua orientação sexual, numa sociedade francesa que os desprezava. Através deste retrato documental entre entrevistas (bastante intimas) e imagens de arquivo (pessoais e familiares), Sébastien Lifshitz tenta perceber como é que os homossexuais e bissexuais daquela geração conseguiram amar e viver em liberdade numa sociedade que os considerava portadores de uma anomalia e que os punha de lado.

“120 Batimentos por Minuto” (2017), de Robin Campillo
O filme-sensação da 70.ª edição do Festival de Cannes, onde recebeu o Grande Prémio do Júri, esta obra de Campillo é uma celebração da vida, onde as ruas são ocupadas por “soldados” que combateram a sida, tendo o seu sangue sido derramado e ignorado. O filme demonstra muito bem os bastidores da epidemia, da luta da Act Up ao ataque das indústrias farmacêuticas, ao seu papel fundamental na sensibilização da população, como por exemplo nas escolas. É por isso, também, um filme pedagógico. Como, a certa altura, alguém diz que a ignorância é uma ameaça e que o conhecimento é uma arma. Um documento histórico que discute uma doença, que não se limita a recriar o passado, tornando-o numa obra intemporal e obrigatória. Estas personagens são reais, elas existiram e infelizmente milhares não se encontram hoje entre nós. É assumidamente um cinema militante.

“Indianara” (2019), de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa (Brasil)
Este documentário acompanha o percurso de luta e resistência da ativista trans brasileira Indianara Siqueira, uma das vozes mais influentes na defesa dos direitos das pessoas trans no Brasil. O filme acompanha o contexto político e social do Brasil durante o impeachment de Dilma e presidência de Temer, à eleição de Bolsonaro, passando pelo assassinato de Marielle Franco, mostrando o compromisso que tem para com a comunidade trans e negra, bem como o trabalho desenvolvido na Casa Nem, espaço de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade. É um filme de militância!

“Lobo e Cão” (2021), de Cláudia Varejão (Portugal)
A primeira longa-metragem de ficção de Cláudia Varejão é uma ode à comunidade queer de São Miguel, nos Açores. Rodado com um elenco maioritariamente não profissional e inspirado nas vivências dos próprios participantes, o filme acompanha Ana e o seu círculo de amigos, explorando as tensões entre tradição, religião, família e liberdade individual. Num território marcado pelo isolamento geográfico, Cláudia Varejão constrói um retrato sensível da juventude queer naquela ilha sobre identidade, pertença e resistência, celebrando uma geração que reivindica o direito de existir, amar e expressar-se sem constrangimentos. Cruzando ficção e realidade, “Lobo e Cão” é uma homenagem à diversidade, à procura de aceitação e aos desejos de uma geração que quer ser visível e aceite.

“Estrany Riu” (2025), de Jaume Claret Muxart (Espanha)
A primeira longa-metragem de Jaume Claret Muxart é um poema visual e sonoro que explora questões de identidade, desejo e pertença através de uma abordagem sensível e intimista. É um drama de amadurecimento que acompanha um jovem durante uma viagem que o transforma por dentro. “Estany Riu” é um filme intimista e sensível, que recusa estereótipos do cinema queer, preferindo explorar a experiência sensorial e poética do processo interior do jovem Dídac.
Texto escrito por Tiago Resende
